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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

João Requizado, o Cangaceiro Solitário


Conheça a história de um homem valente que desafiou as forças militares durante mais de sete anos

Figura mitológica e que povoou o imaginário da população mais velha de Brotas de Macaúbas, Ipupiara, Morpará e Barra do Mendes, além de diversas outras cidades da Chapada Diamantina, João Requizado, conhecido como “o cangaceiro solitário”, motivou muitos livretos de cordel. Um dos mais completos é o do Aidner Mendez Neves, o popular cordelista Luar dobConselheiro. Nessa obra que publicamos nesse blog – para conhecimento das novas gerações de brotenses – o autor traz a tona uma história real e pouco conhecida, vivenciada nos anos 30 em terras pertencentes ao município de Brotas, a do único cangaceiro que lutou sozinho por mais de sete anos contra as forças do Estado.

Mais uma destas histórias
Que só existem no sertão
Que mostram a resistência
A injustiça e opressão
Pois o povo sertanejo
Só morre de arma na mão.

Este fato ocorreu
Como muitos no nordeste
O povo sempre oprimido
Pela sede, fome e peste.
Na competição da vida
O sertanejo leva o teste

Na Serra da Cravada
Na Chapada Diamantina
Nasceu João Requizado
Filho de Dona Vitalina
Com Seu Emídio Fortunato
Tava escrita sua sina

Tinha também quatro irmãos
Unidos sem desengano
Eram eles: Canuto, Ciro,
Pedro e Feliciano.
Mas eram suas três irmãs
O ciúme deste mano

Eram Jovita, Jovelina,
E a doce Maria Isabel.
Viviam a vida pacata
Em seu pedacinho de céu
Nas lavras diamantinas
Cumprindo remido papel

Jovita e Maria Isabel
Casaram com dois garimpeiros
Que viviam na penúria
Por que não tinham dinheiro
Pois a escassez de diamantes
Assolava o garimpo inteiro

No dia doze de Abril
Do ano de trinta e três
Jovita e seu marido
Desentenderam-se de uma vez
Até bater nela ele bateu
Arrepara o que ela fez

Saiu correndo para a Estiva
E queixou-se ao seu irmão
Tava agora anunciada
Princípio de revolução
Requizado pegou ar
E foi de ódio com razão

Apôis João Requizado
Só deixou passar um dia
A sexta-feira Santa
Dia de fé e alegria
Mas no sábado de Aleluia
Foi resolver a arrelia

No caminho prá Estiva
Já pertinho de Mosquito
Requizado encontrou
Num azar mei esquisito
O cunhado Rogaciano
E começou o alarido

O bravo João Requizado
Partiu pro covarde cunhado
Aplicou-lhe uma surra
Do jeito que tá mandado
O cabra ruim ficou mole
Ferido e desacordado

Ficou sabendo que o mesmo
Fazia o marido de Isabel
Que ele também agredia
A esposa de modo cruel
Resolveu fazer visita
Pra acabar com o escarcéu

Foi à casa da outra irmã
E o outro covarde encontrou
Altino Ferreira da Silva
Com quem Isabel se casou
Estava com febre palustre
Mas isso não adiantou

João Requizado quebrou
O outro cunhado no pau
Deixou feio e ensanguentado
O corpo daquele animal
Fraturou o braço esquerdo
Deixando a cena fatal

Altino depois de uns dias
Foi dar queixa de João
Na cidade de Lençóis
Buscando por solução
A pior tava por vir
E virar perseguição

Pois duas semanas depois
Altino Ferreira morreu
Morreu de febre palustre
E da surra que João deu
Começava a história dum cabra
Que o povo não esqueceu

Requizado ficou tranqüilo
Apôis foi caso de família
Como bateram em sua irmã
Podia ser sua filha
Qualquer pessoa com honra
Ficaria uma pilha

Porém num dia de sábado
Dois soldados bem armado
Matias e João dos Santos
Eram os nomes dos “macaco”
Tentaram efetuar a prisão
Do nosso João Requizado

Quando deram voz de prisão
Com as armas apontadas
Requizado deu meia volta
E saiu a galopadas
Montado em bom cavalo
Pelo meio das descargas

Quinze dias depois
Os mesmos soldados de outrora
Tentaram de novo prender
Requizado onde ele mora
Mas esta nova tentativa
Também entraria para a história

É que nosso João Requizado
Escapou da refrega de novo
Por um campo de futebol
Segundo nos conta o povo
Debaixo de bala de fuzil
Subindo e descendo morro

Em dezenove de setembro
Do ano de trinta e um
Nomeado interventor
Sob o canto do anum
O Juraci Magalhães
Sem escrúpulo nenhum

Mandou tenente Zacarias
às lavras diamantina
Pra ser novo delegado
Promover carnificina
Zacarias Justino dos Santos,
Requizado... Sua sina

Mandou prender Requizado
Lá na vila da Estiva
Deu ordem ao subdelegado
João Pereira da Silva
Chamado “João da Dominga”
Homem bom de voz ativa

Mas só que João da Dominga
Era amigo de João Requizado
Por isso seria difícil
Realmente complicado
Cumprir a prisão do amigo
Por ordem do delegado

Assim, para não cumprir,
A ordem do Zacarias
Passou para seu suplente
Aquela ordem do dia
O Alfredo Ataíde
Pois cumprir ele podia

Assim João da Dominga
Agiu como leal irmão
Avisou João Requizado
Do plano em execução
Requizado preocupado
Foi atrás de proteção

Foi à fazenda Ouro Preto
Perto de Bom Prazer
No município de Wagner
Comprar algo prá não morrer
Com Adolfo Madureira
Comprou uma arma prá valer

Era uma bela escopeta
Destas de repetição
Aquela com certeza
Era boa proteção
Aliada a seu revolver
E a muita munição

Alfredo Ataíde sabendo
Da compra de Requizado
Armou emboscada na estrada
Com quatro soldado armado
De fuzil com munição
Os soldado entrincheirado

Requizado retornando
Bem armado e a sós
Deparou-se com os homi
E entrincheirou-se logo após
Tiroteio foi cerrado
Recuaram pra Lençóis

Após nosso Requizado
Ter dado carreira nos homi
O Tenente Zacarias
Queria pegá-lo com fome
Sua honra tava em jogo
Sua carreira e seu nome

Armou uma nova volante
Composta de dezoito soldado,
Ordenou à essa volante
Que fossem no meio do mato
Para a Serre da Cravada
Prá prender o Requizado

Ao voltar, João do garimpo,
Com o revólver na cintura
Escopeta à tiracolo
Pelo meio das Daturas
Recebeu foi a descarga
De póiva e bala pura

Como uma jaguatirica
Requizado pulou prá trás
Pegou a sua escopeta
E atirou de forma voraz
Botou prá correr os dezoito
Soldados nos carrascais

Requizado tinha agora
Sua fama alardeada
Botou dezoito soldados
Prá correr em debandada
E a fama de um só homem
Tava então iniciada

O fulo tenente Zacarias
Mudou de tática prá ver
Mandou apenas dois soldados
Para alarde não fazer
A ordem ainda era a mesma
João Requizado prender

Perto da feira da Estiva
Requizado um doce comia
Na porta de uma amiga
Do jeito que sempre fazia
Percebeu de longe os soldados
E pensou no que faria

Mais rápido que raposa azeda
Requizado avisou a companheira
Que entrou correndo em casa
Vendo o ronco das bala certeira
Requizado não só escapou
Como de novo deu carreira

Matutou João Requizado
Que a coisa estava sem jeito
Foi-se para Iraporanga
Garimpar naquele leito
Lá nas bandas de Iraquara
Mostraria mais um feito

Um dia teve uma festa
Lá mesmo em Iraporanga
O Tenente Zacarias
Mandou tropa de capanga
Volante de oito soldados
Que eram o cão chupando manga.

O porteiro da tal festa
Amigo de Requizado
Avisou-lhe quando viu
O batalhão adiantado
Arrepara o que é que fez
Nosso cangaceiro ousado

Quando a tropa adentrou
A festa grande e feliz
Requizado aproveitou
A falta de diretriz
Adiantou-se à tropa
Trocando palavras gentis

Como a tropa não conhecia
O rosto do meliante
Requizado escapou
Daquela tropa num instante
Trocando amabilidades
Com a tropa de infantes

Quando o pobre comandante
Daquela tropa vergonhosa
Perguntou por Requizado
Ao porteiro da palhoça
Ele disse: Foi com ele
Que tu teve aquela prosa!

O tempo foi passando
E no ano de trinta e seis
Chegou o Cabo Penalva
Para resolver de uma vez
Com doze praças armados
Olha só o que ele fez

Deu uma espingarda de caça
Ao garimpeiro Carolino
Pernoitaram em sua casa
Fingindo que tavam dormindo
Pertinho da velha casa
Do Requizado traquino

Cercaram a casa dele
Logo na neblina do dia
Bem às cinco da matina
Na porta do homem batia
Requizado abriu a porta
E a bala no centro comia!

Requizado recuou
Pra dentro de sua casa
Ergueu sua escopeta
E foi respondendo a bala
Mostrando que sertanejo
Acuado é cobra braba!

Não só respondeu à bala
Como foi bem mais ousado
Escapou daquele cerco
Pelo meio dos soldado
Tirando onda com os homi
No meio do fogo cruzado

Prá proteger as crianças
E os moradores do lugar
Correu pro final da rua
Para a tropa aguardar
Uma escopeta e um revólver
E muita bala pra gastar

Novamente entrincheirado
Bem e com boa proteção
Houve novo tiroteio
Lá naquela região
Fingindo ter companheiros
Mudando de posição

Os soldados assustados
Com bala pra todo lado
Fugiram pela estrada
Correndo apavorado
Requizado tomou atalho
E chegou adiantado

Os soldados então chegaram
A uma bifurcação na estrada
Ficaram ali em dúvida
Pra onde a Estiva estava
Mas para surpresa geral
Uma voz foi escutada

“O caminho é o de lá!”
Gritou João Requizado
Descarregando a escopeta
Bem em cima dos soldado
Foi tamanho escarcéu
Que eles fugiram pro mato

Terminado o tiroteio
Requizado sumiu novamente
Os soldados então seguiram
Seu caminho lentamente
Mas depois de alguns quilômetros
Outro tiro derrepente

Houve novo tiroteio
Ali na garganta da serra
De meio em meio quilometro
Requizado fazia uma guerra
Apôis muito conhecia
Aquela sua amada terra

O advento do Estado Novo
Feito por Getúlio Vargas
Em novembro de trinta e sete
O país se modificava
Sobretudo na Bahia
Governador renunciava

Tomou posse o comandante
Da sexta região
Antônio Fernandes Dantas
Coronel por profissão
Desafeto de Zacarias
Delegado por missão

Zacarias delegado
Transtornado pra valer
Largou o posto que tinha
Lutado pra obter
E foi para a capital
Sua vida resolver

O Tenente Zacarias
Foi logo substituído
O Capitão João Coelho
Homem forte decidido
Tentou de forma amigável
Ajeitar o acontecido

Mandou dois mensageiros
Antônio e Esmeraldo Sena
Dizerem que tudo aquilo
Era por coisa pequena
Que se de pronto se entregasse
Diminuía a sua pena

Requizado afirmou
Que faria o aconselhado
Porém não confiou
Em palavra de fardado
Pros garimpos de Paus Moles
Fugiu pra não ser algemado

Nos garimpos de Paus Moles
Na Chapada Velha bonita
Esperava ter sossego
E harmonia em sua vida
Mas era mesmo sua sina
Ter a vida perseguida

Capitão João Coelho
Mandou então a volante
Prás bandas da Chapada Velha
Procurar o meliante
Quarenta homens armados
Pra pegá-lo adiante

A força chegando a Seabra
Prendeu Claudionor de Queirós
Amigo de João Requizado
Homem sabido e veloz
Foi logo tomado de guia
Para objetivo atroz

Requizado ficou sabendo
E foi à vila assistir
Na frente de uma casa
Já não se agüentando de rir
A tropa passava por ele
Sem mesmo o distinguir

Claudionor de Queirós, sabido.
Fingiu então que nada via
Porém o soldado Palmíro
O rosto de João conhecia
Chamou a atenção da tropa
Mostrando a ousadia

Os soldados insultados
Com a ousadia do rapaz
Correram prá cima dele
Com ódio de força procaz
Com armas engatilhadas
Para o cangaceiro audaz

Requizado adentrou
Uma cabana acabada
Os soldados dispararam
Uma chuva e meia de bala
Requizado com o revólver
Respondia à presepada

Saiu e se entrincheirou
Ouve então nova batalha
De um só homem com um revólver
Contra quarenta canalha
Portando potentes fuzis
E as armas de metralha

Saiu novamente vencedor
Como num pacto com o capeta
A noitinha inda voltou
Pra pegar a escopeta
Pra continuar na briga
Bala á bala, treta á treta.

Outro milico orgulhoso
Chegou à Estiva arrogante
Disposto a pegar Requizado
Levava seu plano adiante
O nome do pobre infeliz
Era Cabo Cavalcante

Com tropa de quinze homens
De objetivo ardoroso
Foram à Serra da Cravada
E dormiram em Seu Cardoso
Um velho que morava em frente
Do cangaceiro valoroso

Quando o dia já raiava
Requizado tomava café
Pelo buraco da fechadura
Viu os homens de má fé
E o Cabo à sua porta
Pronto a dar o pontapé

Requizado pegou ligeiro
A escopeta de repetição
Quando o Cabo abriu a porta
Ouviu-se a explosão
O tiro de Requizado
Pegou o Cabo de raspão

O Cabo apavorado
Ordenou a sua tropa
Que corressem atrás dele
Vasculhando toda toca
Quem se deparar com ele
Mira o cano e pipoca

O combate desta vez
Foi até o meio dia
Se bem que até a noite
Tiroteio se ouvia
A história tava crescendo
E transformando em magia

Requizado saiu ferido
Neste ultimo combate
Na fazenda de um amigo
Camarada e compadre
Cuidou e restabeleceu
A saúde à vontade

Voltou algum tempo depois
A ir à feira da Estiva
Nem por isso deu problema
Pois não arranjava briga
O povo o respeitava
Como herói de força viva

Porém em doze de janeiro
De mil novecentos e quarenta
Tenente Cordeiro de Matos
Chegava com fome sedenta
De pegar o Requizado
E acabar com aquela lenda

No dia seguinte, de pronto
Sabia ser dia de feira
Foi junto ao Cabo Crispím
Também o Sargento Bandeira
E o investigador Menezes
Pra fazer a bagaceira

Na feira deu voz de prisão
Ao nosso João Requizado
Tirou-lhe o revólver da cinta
O deixando desarmado
Seguraram o cangaceiro
E de pronto o algemaram

Requizado desarmado
Relaxou a comitiva
Tiraram-lhe as algemas
Pra não provocar ferida
Foram escoltando ele
Para a vila de Parnaíba

Vendo aquela confusão
O povo a ver os fatos
Requizado aproveitou
Desatenção dos soldados
Viu que a arma que tinha
Era o seu par de sapatos

Bateu com os sapatos no rosto
Dos soldados ao seu lado
Fugiu correndo dos homi
Que eram despreparados
Escapou mais uma vez
Do cerco dos soldados

Os milico dispararam
Seus fuzis numa rajada
Acertaram-lhe o ombro
Quando longe já estava
Dentro dum canavial
Sumiu sem deixar pegada

No dia seguinte ele foi
Em busca de Albertino
Albertino Alves de Souza
Farmacêutico muito fino
Que cuidava de mulher,
Cangaceiro e menino

Só que a bala extraída
Logo infeccionou
Foi à cidade de Wagner
Procurar outro doutor
O médico Américo Chagas
Que a chaga lhe curou

Além de curar Requizado
Deu proteção ao paciente
Pois viu que João Requizado
Naquele caso era inocente
Proteger as suas irmãs
Era mesmo coerente

Alguns dias depois
Chegou Ciro, seu irmão.
Trazendo-lhe um fuzil
E duzentas balas num sacão
Mas foi meio imprudente
Deixando rastro no chão

Assim o Tenente Cordeiro
Chegava com seus soldados
Num domingo às doze horas
Pra prender o Requizado
Cercou a casa do médico
Mas chegava atrasado

O valente Requizado
Foi pra Serra da Cravada
Com fuzil e munição
Lá por dentro da Chapada
Esperar pelos soldados
Prá mais uma presepada

O Tenente irritado
O Médico então algemou
O intimou a trazê-lo
De volta pra onde o curou
Era agora responsável
Pela entrega de quem ajudou

Naquela mesma tarde
Na companhia de um amigo
Foi a Serra da Cravada
Em busca do foragido
Uma forte tempestade
Aumentava o perigo

Depois de muita procura
Américo o encontrou
Contou-lhe o ocorrido
Requizado se espantou
Mas pelo bem de seu amigo
Requizado concordou

Saíram lá da Cravada
Com destino a Salvador
Prá se entregar aos homi
E safar seu protetor
Acabar com aquela história
E mostrar o seu valor

Atento às emboscadas
Da polícia na estrada
Requizado e seu amigo
Prosseguiam a jornada
Requizado pressentia
Que sua hora era chegada
Atravessaram a rodovia
De Lençóis a Estiva
Chegaram a Pedras do Chapéu
Sem no entanto ter briga
Chegaram a Lagedinho
Cortando o mato e urtiga

Ao meio dia atrravessaram
A ponte sobre o rio Utinga
Foram à fazenda Uruguaiana
Pra descansar os cavalos
Em meio à cassutinga

Depois prá Fazenda Araçás
Trocar os cavalos cansados
Depois foram a paraiso
Pois estavam fatigados
Iam descansar um pouco
E voltar ao ncombinado

Seguiram pra Rui Barbosa
Pra pegar ônibus ir além
Mas adiante, em Itaiba
Iam pois pegar o trem
Pra chegarem a Salvador
E da lei virar refém

Durante a cavalgada
De Itaiba a Rui Barbosa
A capanga de balas furou
Uma má sorte perigosa
De duzentas, sessenta e uma
Sobraram pra dupla horrorosa

Américo e João Requizado
Chegaram a Salvador
Ficaram na Pensão Glória
Rua do Bispo, sim senhor.
Todavia prá despistar
De pousada se mudou

Foram pro Hotel Maia
Lá no bairro da Calçada
O médico foi à polícia
Tentar ajeitar a parada
Ouviu foi muita pilheria
Humilhação e algazarra

Então Requizado foi preso
Na cadeia da capital
Depois foi enviado
À sua terra natal
Na cadeia de Lençóis
O seu ponto inicial

O rábula Olímpio Barbosa
Bem que tentou defender
Mas quanto àquela prisão
Não havia o que fazer
A partir deste momento
Sol quadrado vai nascer

Seis anos, a pena
Que o requizado conseguiu
Na hora do depoimento
Seus feitos ele assumiu
Na madrugada seguinte
João Requizado fugiu

Voltou então novamente
à sua Serra da Cravada
Passou foi mais de dois meses
Caindo sempre na risada
Combatendo bem, sozinho,
Dezenas de volantes armadas

Depois de mais outras tantas
Foi-se atrás de ares limpos
Foi-se prá Chapada Velha
Na labuta do garimpo
Mas sempre com um pé atrás
Como era seu instinto

Todo o seu treinamento
De guerrilha na caatinga
É comum ao sertanejo
Ter toda aquela mandinga
Usada pra caçar Peba
No meio das cassutinga

Requizado proseava
No garimpo Solidão
Numa noite muito escura
Num boteco pé no chão
Essa noite era selada
O fim da perseguição

O Investigador Eliseu
Chegou com soldados armado
Perguntou então a João
Se ele era o Requizado
Pois se fosse tava preso
E se fugisse acabado.

Requizado num pinote
Com uma capa colonial
Apagou o candeeiro
Que iluminava o local
E tentou fugir dos homi
Na escuridão total

Mas o investigador
No meio do bagaceiro
Disparou seus dois revólveres
Nas costas do cangaceiro
Que tombava desta vez
Sem revidar ao tiroteio

Naquela noite tristonha
O mesmo investigador
Obrigou o povo local
A carregar com muita dor
O corpo de Requizado
Cangaceiro de valor

Lá em Barra do Mendes
Requizado foi sepultado
Figura lendária do povo
Que sempre será lembrado
Brigou por mais de um lustro
Contra as forças do estado

Se isso vira moda
Meus caros companheiros
A lei se regionaliza
Prá alegria dos catingueiros
E os homi tremem na base
A volta dos bons cangaceiros

QUEM É
Luar do Conselheiro (Aidner Mendez Neves) é cordelista, escritor, poeta, compositor, biógrafo, romancista, roteirista e cantador. nasceu em 1983, no Rio de Janeiro, mas desde a infância reside em Salvador, Bahia.

Foi coordenador do Núcleo de Cultura do Centro Acadêmico de História, da Universidade Católica de Salvador. Nesse período, levou índios da tribo Cariri-Xocó de Alagoas e índios Tapuia-Fulni-ô de Águas Belas, Pernambuco, para um debate sobre as questões indígenas dentro da universidade.

Atuou como ambientalista, na condição de delegado de Conferências de Meio Ambiente, defendendo os ecossistemas de Caatinga, Restinga, Manguezal e Mata Atlântica da Bahia. Também participou de diversas mobilizações de caráter ecológico no Estado, tendo conquistado o título de Conselheiro das Águas, pelo então SRH, hoje INGÁ (Instituto de Gestão das Águas).

No sertão baiano, participou de Rodas de São Gonçalo (tradição popular), Reisados, Alvoradas, Missas de Vaqueiros, Desafio de violeiro, de Repentista e de Aboiador; tendo ganhado o título de Griô, pelo Ministério da Cultura.

Como poeta popular, ajudou a organizar a “Roda de Poesia de Valente”, no município de Valente, região sisaleira da Bahia. Com o apoio de poetas locais o movimento ganhou amplitude regional.

TRAJETÓRIA

Desde os dois anos de idade, na Bahia, cresceu dentro do cotidiano e cenário da Praia dos Artistas, na Boca do Rio, bem como na colônia de Pescadores da comunidade.

No início da adolescência teve acesso à literatura de cordel e influências de Cantadores e Violeiros, como Ivaníldo Vilanova, Zé de Laurentino, Xangai, Elomar, Fernando Guimarães, Vital Farias, Wilson Aragão, entre muitos outros nomes conhecidos da Bahia.

A experiência acumulada com as idas e vindas pelo árido sertão nordestino consolidou a identidade de poeta popular, em trajetória que incluiu passagem por localidades como: Canudos, Uauá, Monte Santo, Região Sisaleira da Bahia, e também Alto Sertão Moxotó, em Pernambuco, entre tantas outras, que definem perfil e trabalho regional.

Nordestino por convicção, retrata as lutas do povo sertanejo em versos e canções, é autor dos cordéis “ABC da Boca do Rio”, “O Sebastianismo no Brasil”, “João Requizado, o Cangaceiro Solitário”, “A saga da Pedra do Bendegó”, “A peleja do Boi Valente Com o Menino Aboiador”, “Montalvânia, Uma Cidade Diferente”; entre muitos outros.

Livros

Autor de “Luar do Conselheiro, Poemas, Cordéis e Canções” e “Gildo, a Voz da Libertação”, já publicados, e de mais quatro livros aguardando publicação. Também possui poemas publicados em coletâneas e revistas, no Brasil e em Portugal, além de escrever roteiros e peças.

Eventos

Participou de apresentações musicais no Espaço Ricarti, na Boca do Rio, na Praia dos Artistas. No Centro Histórico de Salvador, ao lado de Mestre Zé Gaguinho, do tradicional terno de reis “Grupo Semente da Roça”, fez parte de apresentações musicais no centro histórico de Salvador; participou do aniversário de Lirinha (Cordel do Fogo Encantado), no Teatro Módulo também em Salvador. Seus caminhos de violeiro o levaram a tocar em Barra do Jacuípe (BA), Barra de Pojuca (BA), Porto de Sauípe (BA), Sertânia (PE), São Domingos (BA), Capim Grosso (BA), Bendegó (BA), na Universidade Católica de Salvador, na UNEB de Conceição do Coité, entre outros locais mágicos do nordeste brasileiro.




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