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sexta-feira, 16 de março de 2012

Afinal, qual o dia do aniversário de Brotas?








Cidade comemora 74 anos de emancipação política no dia 30 de março, mas a história verdadeira é muito diferente


A data da emancipação política do município de Brotas de Macaúbas, fixada em 30 de março pela Lei Orgânica do Município de 1990 está errada. O documento oficial, escrito pela Câmara de Vereadores Constituinte se baseia no decreto Lei no 10.724, assinado em 1938, pelo então interventor estadual Landulpho Alves de Almeida, mas está muito longe da realidade. Apesar de oficialmente comemorar-se 74 anos de emancipação política no próximo dia 30 de março, a nossa cidade tem mais que o dobro dessa idade. Só a título de comparação, a comunidade de Ouricuri do Ouro este ano celebra o seu centenário de fundação.

Fica a pergunta a estudiosos, professores, alunos, autoridades, cidadãos do povo: qual é mesmo a data do nascimento de nossa cidade e do nosso município? A título de informação, nos anos 40 – logo após o fim da II Guerra Mundial –, mais precisamente no dia 8 de setembro de 1947, Brotas celebrou o primeiro centenário da Freguesia (Paróquia), data que foi marcada pelo pouso dos primeiros aviões na cidade, em um campo construído em seis dias pelo padre José Pereira Bastos nas imediações de onde fica hoje o Colégio Nossa Senhora de Brotas.

A festa do padre Bastos tem todo sentido – e por isso mesmo foi revestida de toda pompa e circunstância, como lembra o comerciante Noé Martins de Araújo. “Eu tinha nove anos na época e me lembro perfeitamente que o povo dizia que Deus fez o mundo em sete dias e o padre Bastos construiu o campo de avião para o centenário em apenas seis dias”, conta. Meu pai, Rosalvo Martins do Espírito Santo, do alto de seus quase 95 anos de vida, diz que votou para intendente (prefeito), “no tempo da chapa batida, quando o voto era declarado de público e o fio de barba calia a palavra dos honens” (as mulheres não votavam naquela época), muito antes de 1938, o que caracteriza a emancipação politica anterior ao que estabelece a lei municipal.



LUTA HERÓICA DOS BROTENSES

A Lei Orgânica do Município, promulgada em 5 de abril de 1990, fixa a data da emancipação em 30 de março de 1938, mas está muito muito longe da realidade. A história brotense é muito mais antiga e relata o heroísmo de seus filhos na primeira década do século XX, pegando em armas para lutar pela hegemonia do município, cuja fundação se deu no tempo do Império, em 1878.

O município de Brotas de Macaúbas, que era extraordinariamente grande e tinha sete mil quilômetros quadrados, indo de Morpará (margem do Rio São Francisco) até Barra do Mendes, hoje possui 2.372,44 km2. A primeira penetração no território aconteceu na segunda metade do século XVII, por garimpeiros à procura de ouro e pedras preciosas. Dessas incursões o pequeno povoado foi elevado à condição de freguesia, em 1847, com o nome de Nossa Senhora das Brotas de Macaúbas. O arraial desenvolveu-se em função da comercialização do diamante e, em 1878, criou-se o município com o nome de Vila Agrícola de Nossa Senhora das Brotas de Macaúbas.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) dizem que em 1931, simplificou-se o topônimo para Brotas, e posteriormente, em 1943, para Brotas de Macaúbas. No decorrer de sua história, Brotas de Macaúbas teve seu território desmembrado para formar os municípios de Barra do Mendes e Ipupiara (1958) e Morporá, em 1962. O distrito de Corrente foi anexado ao município de Oliveira dos Brejinhos (nos anos de 1920).




O MILAGRE DA VAQUINHA

O certo é que a cidade surgiu e cresceu em torno da pequena capela devotada a Nossa Senhora. Há notícias sobre a existência do lugar desde 1792 com o nome de Brotas. Mas a povoação em torno da igreja e do cemitério, contruído do lado direito, ganhou força com o milagre da vaquinha. Conta-se que a filha de um fazendeiro ficou muito triste com o sumiço de uma bezerrinha, presente do pai, levando a mãe a fazer uma promessa de que mandaria erguer uma capela para louvar Nossa Senhora caso o animal fosse encontrado.

Meses se passaram e a menina definhava, até que caçadores e vaqueiros encontraram-na, já uma vaquinha e com um bezerrinho no local chamado Boqueirão de água pura e boa e da qual não se sabia a existência até então. A água cristalina - que abasteceu a população por muitos anos - e o capim farto no local salvaram a vida da bezerrinha perdida. Além da capela, o pai da menina também doou as terras ao derredor que foram sendo povoadas até os dias de hoje.

A partir do milagre, nascia a florecente Vila Agrícola de Nossa Senhora de Brotas, que mais tarde foi elevada à condição de município, incluindo terras hoje pertencentes a Ipupiara, Morpará, Barra do Mendes, além da vila de Corrente, hoje Bom Sossego, pertencente a Oliveira dos Brejinhos. Os primeiros habitantes, índios Muriybeka, foram aos poucos subjugados por garimpeiros atraídos pelas pedras brilhantes. Gente vinda de diversas regiões do Brasil, como Minas Gerais, e também por portugueses, especialmente da Ilha de Açores, trazendo os primeiros escravos negros. É dessa ilha portuguesa a origem da Festa do Divino Espírito Santo em nossa região.






CAYAM-BOLA, PRIMEIRO NOME

Pelos registros orais, pois não existe nada oficial quanto a isso, o primeiro nome de Brotas de Macaúbas foi Cayam-Bola, provavelmente de origem indígena. Além dos índios, que desapareceram na forma original, mas que deixaram a sua marca nos traços de nossa gente, os primeiros habitantes eram garimpeiros e pessoas que trabalhavam na extração e comercialização de diamantes, muitos dos quais vindos da Portugal.

A economia de Brotas, outrora próspera pela extração de diamantes e ouro, assim como pela criação de gado, atravessou muitas crises. Vale o registro e destaque para a produção de fumo de execlente qualidade, especialmente nos povoados de Lagoa de Dentro, Alvorada (ex-Açoita Cavalo), Barrinha, Oricuri e Lagoa Nova. A agricultura e a pecuária, de subsistência, hoje são explorados apenas para o abastecimento local. Há de se destacar o cultivo da cana de açúcar e a produção de aguardente e rapadura, intruduzidos desde os primórdios, pelos colonizadores.

Brotas de Macaúbas também é um dos maiores produtores de cristais de quartzo, atividades muito difundida nas décadas de 40, 50, 60, 70 e 80. Hoje, o quartzo com fios dourados - rutilo - pode ser a grande esperança para a nossa economia, mas os garimpos ainda asseguram poucos empregos, os lucros vão para uma minoria e não há recolhimento de impostos.






IDENTIDADE CULTURAL

A cidade possui alguns marcos dignos de registro, a exemplo da Pedra do Urubu onde, diz a lenda, estaria a marca do pé do coronel Horácio de Matos durante as lutas em defesa pela soberania do município. O açúde, construído no final do século XIX, incío do século XX – época de grande fome – fica na entrada da cidade, tendo ao fundo o Morro da Colônia, é outra referência que remete a nossa lembrança, assim como o hoje depredado e esquecido Boqueirão e a Capelinha.

Há também belos exemplos da arquitetura colonial, especialmente em casas da Praça Dr. João Borges que resistiram ao tempo e à sanha consumista dos homens. Com relação a isso, registramos a destruição do Sobrado do Major Quintino Arcanjo Ribeiro, local onde, nos anos 60, funcionou o Colégio Cenecista. A Igreja de Nossa Senhora de Brotas é outro destaque, valendo o destaque para a nova torre construída no início deste século XXI, nos mesmos moldes da primeira, edificada pelo pedreiro José Viana em meados do século passado.

Na memória coletiva do nosso povo, dois marcos culturais, igualmente destruídos pelo descaso: A Lapinha de Joana Messias que, com a morte da proprietária, não foi conservada pelos parentes (ela não tinha filhos) e nem pela administração pública. O outro exemplo é o Reisado – sendo o mais conhecido e popular o Reis de Lalu - que perdeu-se no tempo, sendo hoje apenas lembrado vagamente por pessoas mais velhas. O legado cultural afro-descendente está presente principalmente nas manifestações folclóricas – reisado e samba de Angola - hoje praticamente inexistentes. Dos índios, ainda guardamos a tapioca e o beiju, além de alguns pratos típicos como o cortado de banana verde.

N.R.: 
Este texto é parte do livro de minha autoria "CAYAM-BOLA - do primeiro diamante à força dos ventos"", em fase de finalização. Pode ser reproduzido no todo ou em parte, com a devida autorização do autor!

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