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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A maxixada do juiz


Esta história eu escrevi baseada num causo contado pelo lagoadedentense Aldivan Fernandes (foto) que ele garante ser real. Que é engraçado, com certeza é e aconteceu em Lagoa de Dentro, terra natal dos personagens

Marciana, mulher determinada, tirava o próprio sustento numa pequena propriedade – uma rocinha, lá atrás do morro -, próximo à Lagoa de Dentro onde morava desde o nascimento, lá se vão 70 anos. Da sua casa, na parte alta do lugarejo, bem pertinho da igreja da polêmica - de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Polêmica, porque construída por negros descendentes de escravos acabou se transformando no centro de uma briga, uma vez que as famílias de pele branca queriam se apossar da capela e da imagem vinda do estrangeiro. Mas os tempos são outros e outra capela, agora para a Rainha, também Nossa Senhora, fora construída de modo a atender um racismo inexplicável à luz da religião.

Marciana era devota de Maria, batizada que fora na tal igrejinha dos pretos, apesar da pela clara, corpo miúdo. O excesso de peso lhe dava a impressão de estar enfiada a força no vestido bem composto, abaixo do joelho. A lida na casa, onde cozinhava, fazia café, limpava e deixava tudo em ordem, não a impedia de fazer sua plantação de milho, feijão, melancia e maxixe no tempo das águas – entre outubro e março - quando a chuva quebrava a rotina de sol a pino nos cafundós do sertão de Palmeiral, onde a Lagoa de Dentro se localizava.

Naquele ano de fartura, milho e feijão jogavam cabriola na rocinha da Marciana, que era visitada por ela religiosamente todos os dias para capinar, plantar, cuidar e colher os frutos da terra tão pródiga. Na tarde daquela sexta-feira ela esperava colher os primeiros maxixes que se transformariam numa belíssima maxixada, o almoço do sábado. Abraçada a uma cesta de vime lá se foi cantarolando até a plantação onde uma surpresa desagradável a aguardava. Em meios aos maxixes, alguém teve a ousadia de fazer um serviço esquisito, grande e fedorento, que fez a Marciana num rompante sair de volta pra casa com muita raiva e nojo.

- Uncuncuncun, só pode ter sido obra do Zezão.

Disse, referindo-se a Zé de Alvino, antigo desafeto com quem costumava bater boca sempre por algum motivo, seja lá política e até futebol, já que era fanática pelo “glorioso” Botafogo Futebol e Regatas e ele pelo Flamengo.

Marciana estava revoltada em ver seu maxixal ser transformado numa latrina. Era desaforo que ela não admitiria de forma alguma. Se queixaria ao bispo da Barra, se preciso fosse.

- No tempo do padre Carrilho isso não aconteceria!

Gritou para a vizinha, dona Maroca, referindo-se ao legendário pároco, nos dias de hoje nome da principal rua de Palmeiral. Marciana esqueceu o terço, as esmolas do Divino - da qual era das mais entusiasmadas participantes quando o imperador e a bandeira chegavam à Lagoa de Dentro trazendo um mundaréu de devotos -, e xingava o Zezão de tudo quando era nome. Foi quando a Maroca a informou que o juiz da Comarca, Dr. Antônio Rodrigues Barbosa, encontrava-se no lugarejo em visita a Dolores e Pio, casal mais abastado das redondezas. Só deu tempo de jogar uma água no corpo, botar o vestido de bolinha azul, presente da comadre Dozinha, calçar o sapato de missa e jogar o xale na cabeça.

Marciana seguiu determinada a dar parte ao juiz e exigir uma punição para Zé de Alvino. No solar de Pio e Dolores, Dr. Antônio descansava na sala principal degustando um licor de jenipapo com lascas de requeijão, isso após se refestelar com galinha caipira ao molho pardo e uma maxixada, como ele, dizia, “inesquecível obra prima” de sua anfitriã.

Foi com a lembrança na maxixada do almoço que o juiz recebeu Marciana e a sua queixa.

- Doutor, só Deus sabe com que dificuldade me dirijo a Vossa Excelência. É que eu tenho uma rocinha, lá atrás do morro, onde planto uma verdurinhas... E qual não foi a minha desventura hoje quando ao tentar colher uns maxixes para a maxixada sagrada do sábado, me deparei com um tolete de bosta sem tamanho, obra do José de Alvino.

- Traga o meliante à minha presença.

O juiz intimou a vinda do Zezão e mandou o sobrinho dos donos da casa – Aldivan - ir buscá-lo, ele que naquela hora estava tranqüilo em casa fumando o cigarrão de palha de todos os dias. O chamado da autoridade era uma ordem. Ele apagou a contragosto o cigarro, meteu a camisa nas calças, enfiou as alpercatas nos pés e seguiu para ver o que o senhor doutor queria com ele.

- Como o senhor teve a coragem de defecar...

- Defecar o que meu doutor?

- Como o senhor teve a coragem de cagar nas verduras dessa pobre velhinha?

Puxando o nariz, que era virado pro lado esquerdo, e que coçava muito quando ficava nervoso, Zezão assegurou ao juiz que não havia sido ele o autor de tamanha desfaçatez. Do outro lado da sala, Marciana interrompeu-o e gritou em alto em bom tom para todo mundo ouvir, já que a sala estava repleta de curiosos.

- Foi ele doutor, foi ele sim. Eu conheço a rosca!

Depois da “balada” recebida do juiz que prometeu mandar prendê-lo se repetisse a façanha no maxixal da Marciana, o Zezão ficou três meses só bebendo, em casa, morto de vergonha de todo mundo.

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